Connosco quem quiser, contra nós quem puder. Ninguém pode.
Na minha juventude, costumava apanhar o 28 para a escola. Ora, o 28, metro de superfície (seja lá isso o que for) que atravessa a cidade de Lisboa (a parte que tem algum interesse, pelo menos), levava fauna de qualidade: drogados, ciganos, chungas, carteiristas, enfim, um literal fartar-vilanagem. Na altura, jovem pequeno e acagaçado, procurava evitar a chungaria e a ciganada, cuja curiosa apetência pela propriedade alheia, nomeadamente a minha, me desagradava. Como não era só eu, o hábito passava pela debandada geral quando chegava o arrastão, normalmente composto por um pateta de brinco com a capacidade intimidatória do Liedson. Eu, mais pateta do que ele, ao invés de lhe espetar um soco nos cornos, também fugia. E assim passei o liceu: amedontrado e a fugir. Tivesse eu tido a audácia de lhe cumprimentar a testa com os punhos e talvez hoje já soubesse duas coisas: primeiro, que este lixo vive do medo que instiga, baqueando ao primeiro sinal de resposta; segundo, que uma navalhada dá para aí uns doze pontos, sobretudo ali na zona da barriga.
Deu-me para partilhar com vossas excelências as minhas memórias da adolescência depois de ler o artigo do Domingos Amaral no Record. O Benfica - e os benfiquistas em geral - parecem completamente acagaçados perante o jogo com o FC Porto. Já toda a gente - contando comigo - veio vaticinar o descalabro causado pela ausência de Ramires e Cia., em jeito de aquecimento psicológico para a derrota que se avizinha. Até ontem à tarde, éramos os maiores. Hoje, com o FC Porto a um ponto, já somos novamente os piores.
Ora, não é preciso ser um génio para associar o adversário do segundo parágrafo ao adversário do primeiro. O FC Porto, no fundo, não é diferente dos chungas que gamavam no eléctrico (comparação que ganha carácter de mimetismo no que ao verbo diz respeito). Também ele vive e respira, sobretudo esta época, do medo - ilusório - que infunde nos adversários. E é desse receio que os benfiquistas, nomeadamente os da blogosfera, já padecem, acreditando - piamente - na derrota que se avizinha.
Pois bem, senhores, está na altura de pararmos de correr e sermos aquilo que bradamos que somos! Não era Guttman que dizia que os jogadores medianos, quando jogavam no Benfica, se transformavam? Ajudemo-los, então, a transformarem-se. Não somos nós a tal massa adepta que está nas neves das montanhas e no fogo do inferno? Estejamos, então, em todo o lado, sabendo acreditar e, mais do que isso, sabendo fazer com que outros acreditem. Façamos de nós e dos nossos jogadores a massa indómita que fez do Benfica o Benfica. É lógico que percamos? Senhores, se há desporto que subjuga a lógica, é o futebol. E se há clube que subjuga o futebol, é o Benfica.
No Domingo que vem, sem Ramires, sem Di Maria, sem Coentrão, transformemos o Carlos, o César e quem quer que esteja em campo. A chungaria chegará como chega sempre: confiante. Cabe-nos a nós preparar o terreno e, no momento adequado, brindá-los com o tal soco nos cornos. Se for para morrer, então morramos. Mas de pé, à Benfica, não rastejando, como as ratazanas que defrontamos.
Eu vou da Bélgica. Quem me acompanha?